Educação

Projovem Urbano assegura inclusão de milhares de jovens por meio do conhecimento e da prática da cidadania

Com seu caráter precursor e um currículo totalmente inovador, o ProJovem Urbano atende, desde o segundo semestre de 2008, a cerca de 350 mil jovens entre 18 e 29 anos em salas de aula espalhadas por todo o Brasil. O dado é do Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação (Caed) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), uma das nove instituições de ensino superior parceiras do programa.

Por meio do Projovem Urbano esses jovens têm a chance de terminar o ensino fundamental e aprender uma profissão, além do acesso à inclusão digital e a participação em ações voltadas à prática da cidadania. “Estamos falando de uma iniciativa inovadora, que atende um recorte menos privilegiado da juventude brasileira”, diz Olívia Oliveira, coordenadora executiva do Programa pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Segundo Olívia, uma pesquisa realizada com ex-alunos do ProJovem Original revelou que a participação no programa trouxe benefícios significativos à vida desses jovens, especialmente no que diz respeito à autoestima, ao aumento de expectativas para o futuro e ampliação de suas redes sociais, permitindo-lhes trânsito maior e mais efetivo no exercício dos seus direitos e deveres.

O ex-aluno Jefferson da Silva, de João Pessoa (PB), diz que o programa o ajudou a ter vontade de lutar por melhores condições de vida. “Passei seis anos na oitava série! Não gostava, não tinha vontade de estudar. No Projovem, os professores me incentivaram e passei a ter aquela vontade de estudar e lutar por alguma coisa”.

Hoje, Jefferson faz parte do Fórum da Juventude de Políticas Públicas do município de Bayeux e da Rádio Comunitária Casa Branca. “O projeto trouxe de bom para a minha vida: perspectiva de vida e vontade de viver e lutar pelos objetivos, não só meus como dos outros, da minha comunidade principalmente. Espero um dia terminar uma universidade e dar aula de matemática para alunos do Projovem”.

Já o professor José Albertino Lordêlo, também da UFBA, lembra que “uma parcela de jovens que antes não tinha perspectivas em relação à continuidade dos estudos, hoje consegue se imaginar na universidade e se sente mais preparada para buscar um emprego”.

A jovem Nilza Cristina Carleto Furtado, 27 anos, é um exemplo concreto do que dizem os professores. Ex-aluna do Programa em Campo Grande (MS), recentemente conseguiu realizar um velho sonho. Nilza está cursando o primeiro semestre de Enfermagem na Universidade Anhanguera (Uniderp), mas antes do ProJovem Urbano ficou nove anos fora da sala de aula. “Tinha parado de estudar quando cursava a sexta série. Não tinha opção, era trabalhar ou estudar”, conta a universitária.

Apesar das dificuldades, o projeto reavivou seu interesse pela sala de aula. “O ProJovem deu um novo rumo à minha vida. Eu realmente precisava estudar, pois sem a educação básica era muito difícil conseguir um emprego”. A estudante entrou na universidade por meio do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e paga o curso de Enfermagem com a ajuda do Programa Universidade para Todos (ProUni).

 

Novos horizontes

A coordenadora pedagógica do Projovem Urbano em João Pessoa (PB), Márcia Lucena, explica que os jovens atendidos pelo programa são aqueles que estão há muito tempo fora da escola e à margem da sociedade. “Eles estão sem espaço de vida, não têm espaço na cidade, nenhum tipo de reconhecimento, convivem com a falta de oportunidades e acabam respondendo de forma violenta a tudo isso”, relata a educadora.

O ProJovem Urbano atende, desde o segundo semestre de 2008, a cerca de 350 mil em todo o Brasil
O ProJovem Urbano atende, desde o segundo semestre de 2008, a cerca de 350 mil em todo o Brasil

O programa visa justamente mudar esse quadro de exclusão. De acordo com Márcia Charret, coordenadora executiva do Programa em Recife (PE), o ProJovem Urbano dá oportunidade para os jovens mostrarem o seu talento. “Nossos alunos só precisam de uma chance para se destacar. O programa é uma grande oportunidade, estabelecida pelos governos federal, estaduais e municipais”.

A coordenadora de João Pessoa (PB) complementa e diz que os jovens se matriculam interessados em se qualificar profissionalmente e alcançar um futuro melhor. “O ProJovem Urbano permite que essas pessoas voltem a sonhar. Muitos pensam que os jovens estão interessados na bolsa, mas não é isso, eles querem, na verdade, se profissionalizar”, ampliar suas chances no mercado de trabalho, diz Márcia Lucena.

O ex-aluno Jairo de Castro, de João Pessoa (PB) reafirma a fala da coordenadora paraibana. “A gente entrou com a esperança de que íamos ganhar uma renda todo mês, comprar uma roupinha, mas não era isso!  Era conhecimento, que está acima de qualquer renda. Eu me sinto um jovem incluído na sociedade porque eu tenho conhecimento”.

Quem participa do Projovem Urbano recebe, durante os 18 meses do curso, uma bolsa de R$ 100 desde que cumpra no mínimo 75% de freqüência às aulas e realize 75% dos trabalhos solicitados pelos professores. Nos últimos seis meses, a média de concessão foi de 165 mil benefícios/mês, o que corresponde a um montante de R$ 99 milhões no semestre, segundo dados do Caed/UFJF.

 

Inovação no currículo

As portas destes novos horizontes se abrem por meio de um currículo integrado, que desenvolve a formação básica, a qualificação profissional e a participação cidadã. Não havia no Brasil um projeto educacional que articulasse estas três grandes dimensões. No ProJovem Urbano, o aluno tem acesso à elevação da escolaridade, adquire uma compreensão maior do mundo do trabalho e participa de ações que estimulam a prática da cidadania.

De acordo com Carmem Sgwalt, coordenadora executiva do programa pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), a proposta de formação cidadã se concretiza, na prática, a partir de ações definidas pelos próprios municípios, atendendo à realidade local.

Em Recife (PE), o líder comunitário José Carlos Rodrigues afirma que o Projovem Urbano incentiva  mais que a vontade de voltar a estudar. “O programa deu aquela alavancada na educação: resgatou o cara da ociosidade, deu a ele a importância do estudo e o colocou para fazer um curso que não tinha condições de pagar. Quando você ocupa a mente do jovem com a educação e possivelmente com uma proposta de trabalho, você tira o espaço da marginalidade, dando a ele honestidade, integridade e o direito a uma renda”.

A chance de ir além do ato de ensinar é uma das grandes conquistas para a professora orientadora Katiuscia da Silva Santana Moreira Lima, de Campo Grande (MS). Para ela, os professores não têm apenas a missão de ensinar, mas de tornar os estudantes cidadãos críticos, responsáveis e atuantes na sociedade em que vivem.

“De maneira geral, o currículo do ProJovem é bastante ousado. Dá uma sacudida no aluno, pois tem bastante contato com a vida imediata do jovem e aquilo que faz sentido para ele”.

O professor orientador Editon Machado, de João Pessoa (PB), afirma que o docente do projeto tem se interessar muito pelo aluno e procurar ajudar o jovem a ser reinserido no mercado de trabalho e a ter uma chance de progresso.  “O professor orientador no Projovem é um diferencial. Ele procura resgatar o lado familiar do aluno e tem o privilégio de desenvolver atividades culturais em sala de aula, como teatro e música.

A coordenadora executiva do Programa em Belo Horizonte, Patrícia Freitas, reafirma que o currículo está adequado às necessidades desse público. “O programa contribui para o aumento da escolaridade, a formação inicial para o trabalho e o protagonismo juvenil, por meio da Proposta Pedagógica, que é voltada para os interesses e as necessidades dos jovens”.

Para a coordenadora Olívia Silveira, a qualidade do material didático também é decisiva para o sucesso do programa. “A inovação está na organização do conteúdo programático, distribuído por temas específicos e de interesse dos alunos. Quanto à escolarização, ela destaca que outro ponto importante é a forma interdisciplinar como os conteúdos são trabalhados”. A coordenadora executiva do Programa em Curitiba, Luciane Vanessa Fagundes, concorda e diz que os conteúdos já vêm integrados nos materiais, mostrando como a interdisciplina funciona e como é fácil exercê-la na sala de aula.

O aluno Bruno Santos, de Itaboraí (RJ), aprova o método pedagógico do programa. “Você tem a oportunidade de dar sua opinião, de se integrar com o assunto, de discutir. Você começa a ler os textos e já na metade tem de parar para fazer uma atividade, para discutir. Você realmente pensa naquilo ali, ainda mais porque fala muito da nossa comunidade, do meio em que vivemos. Isso estimula a pessoa a querer sempre aprender mais”.

 

Qualificação Profissional

A qualificação profissional é realizada por meio dos Arcos Profissionais. Cada município deve escolher entre um e cinco arcos, de acordo com as necessidades locais do mercado de trabalho. Entre os setores de capacitação mais comuns estão os de Telemática; Madeiras e Móveis; Turismo; Construção e Reparo; Alimentação e Vestuário. Em algumas cidades, a capacitação é desenvolvida com o apoio de instituições parceiras, a exemplo do Senai, como ocorre em Rio Branco (AC); Senac, no Recife (PE), e a Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico de Toledo (Funtec), em João Pessoa (PB). “Os nossos alunos têm acesso a entidades de altíssimo nível, como é o caso do Senac. Isso faz parte da inclusão social que o projeto promove”, destaca Márcia Charret, da capital paraibana.

A qualificação profissional é realizada por meio dos Arcos Profissionais, de acordo com as necessidades locais do mercado de trabalho
A qualificação profissional é realizada por meio dos Arcos Profissionais, de acordo com as necessidades locais do mercado de trabalho

Veja, no quadro, todos os Arcos Profissionais oferecidos pelo Projovem Urbano:

CURSOS DE FORMAÇÃO OFERECIDOS PELO PROJOVEM URBANO

Cursos ProJovem Urbano

Formação dos professores

Os professores do ProJovem Urbano passam por duas etapas de capacitação antes de entrar em sala de aula: são as formações inicial e continuada, ministradas pela Fundação Darcy Ribeiro (Fundar) e pelo Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe), que são as entidades responsáveis pela qualificação dos docentes. Juntas, elas capacitam os chamados formadores, que são os profissionais responsáveis por replicar o conteúdo do programa entre os demais professores do curso. Primeiro essas pessoas passam pela formação inicial. São 48 horas de preparação para utilizar os materiais do currículo integrado. Para ajudar os educadores nos desafios do dia a dia, eles participam, ainda, das 16 horas de formação continuada, que acontece ao longo do período letivo.

Pesquisa realizada com ex-alunos revelou que a participação no programa trouxe benefícios significativos, especialmente no que diz respeito à autoestima, ao aumento de expectativas para o futuro e ampliação de suas redes sociais

“As formações inicial e continuada são muito importantes para o sucesso do programa, afinal, esse é um currículo novo, com conteúdos integrados. Além disso, essa preparação é importante para a manutenção do trabalho e para maior compreensão desses jovens, que convivem com diversos problemas”, avalia Luciane Fagundes, de Curitiba (PR).

A formação continuada também oferece espaço para que os docentes de um núcleo troquem experiências e solucionem conjuntamente os desafios verificados na sala de aula. “Todos os professores se reúnem para fazer o planejamento e discutir as dificuldades. A reunião acontece por disciplina ou envolvendo toda a equipe do núcleo. Esse acompanhamento é de fundamental importância para o sucesso do projeto”, relata Ilza Mateus de Souza, secretária de Assistência Social de Campo Grande (MS).

A professora orientadora Kalyne de Barros, de João Pessoa (PB), diz que a metodologia de ensino do programa é que mais se aproxima do que a educação brasileira precisa. “A filosofia, metodologia de ensino e as oportunidades de trabalho que o Projovem Urbano apresenta são responsáveis por transformar a vida de tanta gente. É fácil você encontrar no início das aulas um aluno com tanta vergonha que mal fala o nome. Depois, está apresentando um trabalho, representando um grupo, dando ideias, interagindo. O programa significa a minha possibilidade de exercer a minha cidadania”, afirma Kalyne, emocionada.

“O Projovem acredita nas pessoas. Eles te pegam pelo braço e dizem que vale a pena estudar, tentar de novo. Hoje, o meu esforço já está sendo recompensado: eu trabalho numa faculdade particular, e lá eu executo atividade específica do curso que fiz”, comemora o ex-aluno Jairo de Castro.

 

Acompanhamento e monitoramento

A execução do programa é acompanhada por nove universidades federais que compõem o Sistema de Monitoramento e Avaliação do ProJovem Urbano. Essas entidades realizam pesquisas com os educadores, alunos, exalunos e gestores e fazem a supervisão nos locais onde o curso acontece. “O sistema é responsável pela produção e análise de informações importantes sobre a implementação e a efetividade do programa. Esses dados, por sua vez, auxiliam os gestores na tomada de decisão, ajudando-os a buscar soluções para a melhoria do projeto, explica Olívia Silveira, da UFBA.

Os acadêmicos avaliam, por exemplo, como a matrícula é feita, as condições de oferta do curso, a estrutura dos núcleos e a documentação apresentada pelos alunos. Também verificam a frequência escolar, a entrega dos trabalhos e o desenvolvimento dos Arcos Profissionais. As informações coletadas em todo o País são armazenadas em uma base de dados, administrada pelas Universidades Federais de Minas Gerais (UFMG) e Bahia (UFBA).

Posteriormente, as informações são cruzadas e dão origem a um relatório. A partir daí, as universidades sugerem melhorias na execução dos projetos nos respectivos municípios, explica Carmem Sigwalt, da UFPR.

Os levantamentos também produzem conhecimentos importantes sobre a juventude brasileira e podem subsidiar outras iniciativas e políticas públicas voltadas para o público jovem. “É a primeira vez que o Brasil tem uma política pública que é avaliada paralelamente à sua execução. A Coordenação Nacional interfere imediatamente ao detectar algum erro que possa prejudicar o bom andamento do programa, que está sempre buscando atingir o seu melhor nível”, frisa a pesquisadora do Paraná.

 

Capa | Apresentação | Olha eu aqui | Balanço | Educação | Mundo do Trabalho | Cidadania | Produção e Arte | Para Saber Mais